
Regimento de Cavalaria 7
Esquadrão de Cavalaria 108
Angola 1961/1963
História
Dar à história o Esquadrão de Cavalaria 108 (ECAV108) num tempo tão distante, exige que os factos sejam entendidos como eram vividos na altura e não vistos à luz do nosso tempo com as alterações políticas que entretanto se foram verificando.
Assim, na sequência dos acontecimentos sangrentos verificados em Luanda, com o assalto à Cadeia Civil em 06/02/1961 e pouco depois com o massacre dos fazendeiros, suas famílias e trabalhadores nativos nas fazendas do norte de Angola, tornou-se imprescindível reforçar a guarnição militar na então colónia da costa ocidental de África. Deste modo, depois da decisão política do Governo presidido pelo Prof. Dr. António de Oliveira Salazar, com a afirmação “Para Angola rapidamente e em força”, foram mobilizados diversos contingentes militares.
O ECAV108 constituído por 4 pelotões operacionais e um pelotão de serviços, teve como unidade mobilizadora o Regimento de Cavalaria 7 (RC7) localizado na Calçada da Ajuda em Lisboa, também designado pelo Regimento do Cais, comandado pelo Tenente Coronel Jorge Travassos Lopes.
O ECAV108 seria formado com militares de 1960 que se encontravam no activo. Na altura o recrutamento dos mancebos para o exército era feito para satisfazer as especialidades que a orgânica militar vigente exigia, mesmo que a especialidade atribuída não tivesse nada a ver com aquilo que cada um sabia fazer, de facto, na vida civil. O Capitão de Cavalaria Andrade e Silva na altura pertencente ao Comando do RC7, foi encarregue da selecção dos militares que haviam de compor o esquadrão. Ele tinha estado já numa comissão em Timor, e sabia das necessidades de um grupo de homens que iriam viver juntos durante muito tempo. Foi à Secretaria, e em colaboração com o soldado que organizava o ficheiro dos efectivos do Regimento seleccionou 150 homens considerando, para além do que o exército lhes ensinara, também o que cada um sabia fazer porque o fazia na vida civil. Juntou um cozinheiro de um bom restaurante de Lisboa e outro dos pilotos da barra, juntou magarefes, pedreiros, electricistas, padeiros, mecânicos de automóveis, empregados de escritórios e outros que ele sabia que seriam necessários. Naturalmente que todos seriam também atiradores, quando fosse preciso. Criou assim um grupo de homens com uma homogeneidade de saberes imprescindível para quem parte para uma missão desconhecida onde uma vida organizada iria ser substituída pelo desenrascanço.
Formado o Esquadrão o seu comando foi entregue ao Capitão de Cavalaria do Quadro Permanente António José Pereira Calixto.
O primeiro grande contingente saiu de Lisboa a 20/04/1961, no Navio Motor “Niassa”, e era constituído por vários batalhões de infantaria e outras tropas.
Em 5 de Maio de 1961 partiu de Lisboa da Rocha Conde de Óbidos o segundo contingente no Navio Motor “Vera Cruz” onde seguiam dois Esquadrões de Cavalaria, o 107 e o 108.
Iam para a guerra e para a guerra levam-se armas. Os soldados levaram espingardas Mauser de 8mm m/937 do modelo usado na II Guerra Mundial, mas não havia para todos. Depois, à chegada, logo se veria. Houve quem levasse revólveres pessoais.
A viagem de Lisboa a Luanda decorreu com toda a normalidade e o grande paquete atingiu a Baía de Luanda em 14/05/1961, a um Domingo, ao princípio da manhã com tempo claro e temperatura amena.
Depois do desembarque no cais portuário de Luanda as tropas das diferentes unidades desfilaram pela Avenida Paulo Dias de Novais, com grandes manifestações de entusiasmo e regozijo por parte da população branca que via com a chegada da tropa uma maior protecção para os perigos que diariamente se viviam, tanto em Luanda como noutras localidades.
Formado o Esquadrão o seu comando foi entregue ao Capitão de Cavalaria do Quadro Permanente António José Pereira Calixto.
O 1º Pelotão era comandado por um outro Oficial do Quadro Permanente, Tenente de Cavalaria João de Almeida Bruno.
O 2º Pelotão seguiu sob o comando do Alferes de Cavalaria, do Quadro de Complemento José Orlando Gomes Campos.
O 3º Pelotão foi entregue ao alferes do Quadro de Complemento, José Cláudio Campos Paixão.
O 4º Pelotão era comandado pelo Alferes de Cavalaria, também do Quadro de Complemento, Joaquim Alberto da Cruz Domingos.
O Pelotão de Serviços tinha os Serviços de Saúde confiados ao médico Alferes Miliciano Dr Augusto Chaves Serras, ao Enfermeiro Manuel Fabrício dos Santos e ao 1º Cabo Maqueiro Fernando José Castro Silva.
A Secretaria era chefiada pelo 1º Sargento de Cavalaria Francisco Maia Diogo.
O Serviço de Transmissões, sob a responsabilidade do 2º Sargento de Cavalaria Fernando Pereira Rodrigues, tinha mais três telefonistas para as respectivas operações.
O Serviço de Abastecimentos de víveres e outros produtos era chefiado pelo Furriel vagomestre António Lourenço Marques, apoiado por militares cozinheiros.
Depois do desembarque em Luanda o ECAV108 ficou aquartelado nas instalações do Liceu de Luanda, que tinha sido disponibilizado e adaptado para o fim em vista pelo Governo Militar de Angola.
Devido a graves incidentes no Distrito do Uíge – ataques a povoações e fazendas – foi necessário avançar com um pelotão logo nos fins de Maio de 1961 tendo o 1º Pelotão, sob o comando do Tenente João de Almeida Bruno atingido o Negage, passados 3 dias de marcha, sem qualquer incidente.
A 13 de Junho de 1961 partiram de Luanda os restantes Pelotões, tendo os mesmos chegado ao Negage a 15 do mesmo mês, após dois acidentes no percurso que motivaram a evacuação de um motorista e de um telefonista para o hospital de Luanda e depois para Lisboa, ambos pertencentes ao 2º Pelotão.
Não existia aquartelamento no Negage, cabendo ao Esquadrão encontrar com a população civil casas e espaços para o efeito. Nos primeiros tempos um civil dono de um grande armazém de materiais de construção cedeu o seu espaço, servindo as prateleiras do ferro para dormitórios. Melhores do que o chão de cimento porque eram de madeira. Aqueles militares que faziam parte do Esquadrão e que foram escolhidos no RC7 pelo que sabiam fazer, fizeram o aquartelamento. Em terrenos onde existiam algumas casas degradadas e algum espaço livre os pedreiros recuperaram casas, juntamente com os padeiros fizeram o forno para o pão, os pintores pintaram e os electricistas fizeram as puxadas para a luz. E assim nasceu o aquartelamento do Negage.
Uma das primeiras missões do ECAV108 foi a reocupação da localidade de Dimuca que se sabia ter sido ocupada e vandalizada.
O caminho do Negage para Dimuca foi parado muitas vezes pela existência de emboscadas, buracos onde caiam viaturas cuja retirada era demorada e difícil.
Outras das principais missões confiadas ao ECAV108 foi a de assegurar a defesa e patrulhamento do itinerário Negage - 31 de Janeiro, que era um eixo fundamental para o abastecimento das populações do Norte de Angola, e como tarefa adicional prestar auxílio às pequenas localidades e fazendas nas imediações do Negage.
Para o efeito foi destacado para a povoação do Bungo, situada a cerca de 40 Km a norte do Negage o 2º Pelotão, sob o comando do Alferes José Orlando Gomes Campos, tendo o 3º Pelotão seguido para a povoação de 31 de Janeiro, situada a cerca de 120 Km a norte do Negage, comandado pelo Alferes José Cláudio Campos Paixão.
Durante cerca de dois meses estes dois pelotões defendiam as povoações em que estavam aquartelados e patrulhavam continuamente o itinerário Bungo – 31 de Janeiro, dando protecção às colunas de camiões e outras viaturas civis que seguiam para o Norte nomeadamente com víveres para as populações.
O 2º Pelotão efectuava também patrulha, 20 km para Sul, no itinerário Bungo – Negage.
O Comando do ECAV108 e os outros dois pelotões estavam na povoação de Negage, onde faziam a defesa da povoação juntamente com outras forças militares e rendiam periodicamente os pelotões destacados nas povoações do Bungo e 31 de Janeiro.
O Comando do ECAV108 foi responsável pela elaboração de um “Plano de Defesa de Negage, Puri e Entre-os-Rios” tendo como actuantes as diversas forças militares da zona, os responsáveis pelo Concelho Civil e os civis enquanto entidades individuais. O plano contemplava mapas redesenhados a partir de mapas muito antigos e levantamentos feitos no terreno, as situações de vigilância especial e de emergência, as patrulhas e as rondas, os meios de ligação, os efectivos de material de guerra e munições das forças que tomavam parte na defesa, e de armamento na posse dos civis. Foi usado e deixado como documento “Secreto” para uso futuro.
O ECAV108 foi incumbido de outras missões, nomeadamente relacionadas com a acção psicossocial desenvolvida no sentido de fazer voltar e recuperar as populações refugiadas no mato.
Participou também num “Inquérito junto das Forças Armadas para a inscrição de colonos” que foi parte de uma acção desenvolvida no sentido de levar novos colonos da Metrópole para Angola.
Ao longo do tempo de permanência houve algumas alterações na Unidade. Os Esquadrões passaram a chamar-se Companhias e o ECAV108 passaria a ser Companhia de Cavalaria 108. Os cavaleiros não gostaram porque serão “cavaleiros sempre”. Aceitaram por dever militar, mas continuaram “cavaleiros sempre” no sentir e no trato, até hoje quando escrevemos a nossa história. No capítulo do armamento estreámos metralhadoras israelitas UZI de 9mm e pistolas Mauser também de 9mm. Nos efectivos houve também alterações, tendo o Comandante do ECAV108, Capitão António José Pereira Calixto, sido substituído pelo Capitão Miliciano de Cavalaria Ciríaco José Mendonça da Cunha, uma vez que teve de ir para Lisboa para frequentar o curso de Major. Também o Tenente de Cavalaria João de Almeida Bruno teve de interromper a sua comissão em Angola para fazer o curso de Capitão.
O 1º Pelotão passou a ser comandado pelo Tenente Miliciano de Cavalaria João José Cayola da Veiga, que veio do Batalhão de Cavalaria 345 sob o comando do então Tenente Coronel António de Spínola.
Quando o ECAV108 se preparava para regressar a Lisboa, em Junho de 1963, a rebelião que entretanto rebentou na Guiné Bissau obrigou a Unidade a retardar a sua partida por falta de efectivos para rendição, o que só veio a verificar-se em 20/08/1963. Neste dia o navio Motor “Niassa” rumou para Sul para o Lobito a fim de receber mais tropas e chegou a Lisboa na manhã do dia 04/09/1963 numa viagem calma e sem incidentes.
E no regresso o ECAV108 chegou completo sem ter nenhuma baixa no seu efectivo. Chegaram todos, honrados pelo dever cumprido e felizes pelo regresso às famílias que esperavam por Portugal inteiro. Foram 28 meses de ausência mas chegaram sem baixas porque Deus sempre os acompanhou.
Outubro de 2004
Luís Manuel Costa Santos
Joaquim Alberto Cruz Domingos
José Orlando Gomes Campos